20 de outubro de 2012

A síndrome dos revolucionários-de-facebook



O nosso final de semana foi tomado pela indignação dos "cults" perante o fato de todo o Brasil parar em frente à TV pra ver novela. Mais grave: todo o Brasil parou diante da Globo, a emissora que manipula, faz sua cabeça e vende seus candidatos nas eleições. É motivo para um grande protesto à alienação daqueles que mais uma vez se deixaram levar pela mídia. Nossa, que pecado!

Parem. Fico com vergonha por vocês. Estava há muito tempo a observar essa moda besta de "ser revolucionário", "cult", "a nata da intelectualidade", "o herói que consegue ficar imune aos raios hipnotizantes superpoderosos da TV". É chique demais fazer protesto na cadeira de frente pro computador. Protesto que sustenta o ego, e não ideias.

É como aquela crítica feita no comecinho de 2012 por Bruno Medina, integrante dos Los Hermanos, à música de Michel Teló, que naquela época estourava na Europa. O músico desejou que Teló passasse um bom tempo em turnê, para que a música "ai se eu te pego" e sua dancinha parasse de infectar o "cérebro" dele e dos demais intelectuais do rock alternativo.

É o mesmo raciocínio, tolo, tosco. Poque assim como não se deveria viver acreditando só naquilo que a novela da Globo ensina, seria bom que também se buscasse conhecer músicas em que os instrumentos sejam bem elaborados ou que tenha uma letra boa, alguma crítica.

Seria bom. Mas não faria ninguém mudar o mundo. Não significa que há o direito de repúdio ao fato de um cantor preferir lançar músicas com o único objetivo de lazer e dancinhas de sábado a noite. Não é só o fato de a música existir que causa a alienação e o desinteresse pelos assuntos sérios do país. Quem se interessa pelos Direitos Humanos ou pelo caso de Malala não o deixou de ser só por que parou para ver a Carminha ontem ou quis dançar forró hoje. Quem nunca teve interesse ou instrução para ter este tipo interesse, está preso em toda uma mentalidade que está agregada ao histórico cultural de nosso povo. Não é atacando dois ou três programas da TV que alguém poderá mudar isto.

Quem entendeu a movimentação pelo fim da novela na sexta como "a grande manifestação do poder da Globo" fez alguma coisa pelas pessoas do nosso país que só tem acesso a este tipo de instrução? Ou preferiu ver mais um episódio de The Big Bang Theory?


Será que quem repudia as músicas que nada acrescentam ao nosso cérebro buscou convencer os amigos de não serem coniventes com as músicas que degradam a mulher ou que banalizam o sexo? Ou apenas continuam com orgulho ferido e ouvindo músicas que protestam o ontem como se isso mudasse o mundo hoje?

Parem com essa mania pobre de etiquetar a si e aos outros. Mexam-se em silêncio por algo que sustente suas ideologias e filosofias de vida, e sintam-se em paz para descansar a noite na frente da TV. Não vai os fazer uma pessoa pior. Só os fará menos hipócritas. Berrar aos 4 cantos de uma rede social dizendo que você é o revolucionário do século não é o mesmo que agir.
Cão que ladra, não morde.

2 comentários:

  1. A questão imbricada na crítica de alguns ciberativistas à descomunal mobilização nacional no fim da novela global não é um mero ataque de uma classe intelectualmente superior aos gostos popularesco, mas sim um ataque à alienação sócio-político-cultural, que escraviza, normaliza, padroniza, desconstroem possibilidades, etc... que a novela é quase um eixo central nessa década. Sim, há um olhar de superioridade dos cults - que não tem razão de existir -, mas penso que a crítica deles, nesse ponto, não seja toda desfundada. Afinal de contas muitos outros acontecimentos de relevo nacional não atraem tanta atenção, mesmo influenciando o dia dia do povo! Mas é isso, somos a geração mais despolitizada que ouvi falar, e vamos caminhado para sabe se lá onde.... Que a coleira da domesticação não seja tão sufocante quanto aparenta ser! Parabéns pelo texto! Rogério Rocha

    ResponderExcluir
  2. Sim, Rogério, eu concorso com você. Mas o que eu quis salientar não é o fato de alguém criticar a novela e outros assuntos que sãovazios e chamam a atenção do povo.
    Quis me voltar para o fato de que muitos levantam a bandeira da não-alienação e se revoltam conta a mídia só ali, na poltrona macia em frente ao computador. Num ato cuja única intenção é se mostrar, parecer sábio, parecer diferente, alimentar o ego, e SÓ. Não querem ou não fazem muito mais que isso para mudar a situação ou evitar a manipulação sobre todos nós...

    ResponderExcluir